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Observações sobre a visita a Seara de Forquilhinha e ao Sindicato da Alimentação

18/06/2012

1. O Enfoque da visita ao setor de alimentos do Sul-catarinense Muitos estudos no meio acadêmico, até mesmo nas ciências sociais e humanas, têm se voltado para a pesquisa dos processos capitalistas observando apenas a sua dimensão econômica, apenas o processo da acumulação do capital. Assim fazendo, esquecem por completo de investigar as condições sociais sob as quais ocorre a dita acumulação do capital e o desenvolvimento de determinado setor da economia de um país ou região, jogando, portanto, na lata do lixo, um ensinamento básico de Karl Marx: o capital não é uma coisa (o dinheiro ou a máquina), o capital é antes de tudo uma relação social, uma relação social de exploração! Eis porque nossa visita não se restringiu à empresa e sua força econômica, que aliás é inegável, como atestam o alcance geográfico de suas vendas, a capacidade de competir com poderosas empresas multinacionais. Nosso enfoque, tanto no que se refere às informações que buscamos levar aos alunos que neste semestre estão cursando a disciplina de geografia industrial, oferecida pelo curso de Geografia da UFSC, como nos dados levantados por Leila Beltrão, que prepara tese de doutorado na mesma instituição sobre a industrialização de pequenas cidades do sul catarinense, foi tratar as esferas do econômico e do social como elos inseparáveis. Acreditamos que apenas procedendo desta maneira a universidade pública poderá contribuir os processos de mudanças sociais tão necessários em um país que, a despeito de todo avanço econômico, tem ainda diversas marcas de uma história que é parte do Terceiro Mundo. 2. A importância de conhecer a agroindústria da região, suas formas de produção e relação capital-trabalho. Na década de 1970, o economista francês Christian Palloix, estudando as firmas multinacionais, defendeu a tese de que o estudo das diversas facetas da internacionalização do capitalismo (a internacionalização dos produtos, da pesquisa científica e técnica, entre outros) só é possível quando se ultrapassa o mundo das aparências, isto é, da firma vista isoladamente, para se mirar o que ocorre no plano do ramo ao qual a firma está integrada mundialmente – ao fim e ao cabo, no plano da concorrência mundial. Ora, como desde os anos setenta a internacionalização (ou mundialização) do capitalismo se ampliou um pouco mais (o que não significa aceitar a ideia derrotista da globalização, defendida nas universidades dos EUA como objetivo de fazer crer que os Estados nacionais e sua rede de proteção social acabaram), torna-se obrigatório que qualquer pesquisa sobre o mundo das indústrias, ainda mais nos países agora chamados emergentes (que receberam fortes investimentos de multinacionais ou produziram eles mesmos suas multinacionais) observe como diferentes facetas da acumulação do capital vem sofrendo alterações em resposta ao que ocorre no plano da concorrência internacional. A agroindústria do Sul de Santa Catarina parece fornece um bom exemplo do que estamos dizendo, e especialmente se observamos o que ocorre com as formas de produção aí encontradas e as relações capital-trabalho. Ou seja, estamos diante, no plano mundial, de uma indústria tipicamente fordista, aquela, bem retratada no filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin, em que a esteira é a mais importante inovação tecnológica e a principal fonte do aumento da produtividade do trabalho. Desse modo, as empresas da região só podem pretender concorrer mundialmente (e a concorrência capitalista está cada vez mais acirrada, vale não esquecer) se aplicarem pelo menos uma variação desta forma fordista de organização da produção (a esteira, o estudo dos tempos e movimentos) e sua relação de trabalho correspondente – o que é bem o caso da Seara, por nós visitada. Acontece, porém, que esta aplicação dos métodos fordistas ocorre sobre uma base de direitos sociais (salário, jornada de trabalho, assistência à saúde, etc) muito diferente conforme os países, bem como a partir de uma disciplina fabril que guarda igualmente muitas especificidades. Como é fácil perceber, os países de Terceiro Mundo, como ainda hoje é o Brasil, e isso a despeito de toda evolução de nossa indústria, são os que apresentam as piores condições quando se olha para estes indicadores. E são também estes os países em que a disciplina no trabalho (e, logo, os ritmos de produtividade) depende, para além de quaisquer métodos de engenharia social (taylorismo, fordismo, toyotismo), de condições sociais longamente arraigadas. Enfim, nem todo o aumento da produtividade decorre dos métodos fordistas, podendo-se observar, como nos foi possível fazer em dois dias de visita pela região, fatores ligados às formas sociais presentes na história regional, como a pesada rotina do trabalho agrícola, a subordinação doméstica da mulher, entre outros. Entende-se, assim, como nos relatou o Presidente do Sinticar, Célio Elias, que a jornada de trabalho efetiva na Europa no ramo das agroindústrias seja de 5 horas, enquanto no Brasil as empresas resistem a uma jornada de 6 horas efetivas, defendida pelos sindicatos. Ou ainda que as condições de exploração, medidas pelos índices de produtividade, sejam tão draconianas (desossam 4 a 6 coxasminuto, quando o aceitável seria um índice de 3,2, e 6 a 9 peitosminuto, quando o máximo deveria ser entre 4 e 6) levando os trabalhadores ao adoecimento (draconiana remete a Dracon, legislador de Atenas do século VII antes de Cristo e seu severo código de leis) levando ao adoecimento dos trabalhadores. (Vale um outro registro: se o sindicato luta para que a distância entre um trabalhador e outro na esteira seja de 1 metro, enquanto a empresa insiste em 70 cm, uma observação rápida como a que fizemos em nossa visita à fábrica facilmente nota que em muitos pontos sequer os 70 cm são cumpridos) Aliás, se falamos que as formas de produção adotadas nas agroindústrias do Sul catarinense tem algo das técnicas fordistas, vale não esquecer que o pensador italiano Antonio Gramsci lembrou ser o sistema Ford tão duro com os trabalhadores que chega a controlar seu sono, sua alimentação, suas horas de descanso, podendo mesmo torná-los homens secos. Todavia, Gramsci nos deixa também uma ponta de esperança no que diz respeito à capacidade de organização política desses homens. Pois essas severas condições de trabalho, assinala ele, podem também transformá-lo no “homem massa ou homem-coletivo”, sem que, todavia, perca “sua forte personalidade e originalidade individual”. Como não pensar que o sindicalismo regional, fortemente atuante, segundo observamos em nossa visita, já se aproxima um pouco disso? E, nessa toada, pode ele ajudar a combater não apenas as condições trazidas pelos métodos fordistas de exploração, mas também aquelas que, ligadas à vida tradicional (subordinação doméstica, etc.), contribui para facilitar a exploração capitalista na fábrica. Marcos Aurélio da Silva Doutor em Geografia Humana pela USP; Prof. dos cursos de graduação e pós graduação em Geografia da UFSC.
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